O senador Flávio Bolsonaro (PL) tem subido nas pesquisas e vem ganhando apoio de empresários e de agentes do mercado financeiro, mesmo sem detalhar como pretende conduzir a economia. É o que aponta uma análise publicada pelo Nexo Jornal em 24 de setembro, que reuniu as principais propostas do candidato e a avaliação de especialistas. O texto trata do plano de Flávio e não o compara com o do presidente Lula (PT).
O que o plano propõe
No capítulo econômico, o programa fala em equilíbrio fiscal e, ao mesmo tempo, promete investimentos bilionários em infraestrutura e cortes de impostos, sem dizer quais tributos seriam reduzidos nem como. Entre os pontos estão rever a reforma tributária, desonerar exportações e investimentos e reduzir impostos sobre energia elétrica e combustíveis, além de revogar impostos e regulações, também sem detalhes.
A coordenadora do plano econômico, Daniella Marques, disse à Jovem Pan na segunda-feira (21 de setembro) que Flávio orientou a equipe a revogar todos os impostos criados ou elevados na gestão de Fernando Haddad no Ministério da Fazenda (2023-2026), se eleito. As prioridades, segundo ela, seriam cortar o Imposto de Exportação de 12% sobre o petróleo e reduzir o IOF. O Nexo observa que reduzir a carga tributária diminui a receita da União, o que pode dificultar a promessa de equilibrar as contas.
A visão dos especialistas
Para o cientista político Rafael Cortez, do IDP e da Tendências Consultoria, há uma contradição entre reduzir a carga de impostos e fazer ajuste fiscal, e o discurso do plano não a resolve. Ele diz que só há duas saídas, aumentar receita ou cortar gastos, e que compensar os cortes de impostos exigiria uma agenda ainda mais agressiva de redução de despesas. A equipe do candidato sinaliza que parte da receita viria da venda de ativos da União, sem detalhar quais.
A economista Juliana Inhasz, do Insper, afirma que reduzir impostos não é incompatível com o ajuste fiscal, mas exige compensar a perda de arrecadação com cortes permanentes de gastos, fim de benefícios tributários, menos informalidade e evasão e crescimento econômico. Ela se diz cética quanto à ordem proposta, de cortar o tributo primeiro para compensar depois, e vê risco de piora das contas.
O “tesouraço” e a comparação com Milei
A principal bandeira do programa é o que chama de “tesouraço”, um conjunto de cortes de gastos e enxugamento da máquina pública que remete à “motosserra” de Javier Milei na Argentina. Segundo o Nexo, o plano prevê cortar dez ministérios, criar um teto da dívida e combater privilégios e penduricalhos, sem detalhar como nem quanto se economizaria.
Inhasz lembra que o contexto argentino era extremo, com inflação altíssima e sensação de colapso, e diz que o Brasil tem um problema fiscal sério, mas não vive esse caos. Cortez afirma que a ideia tem adesão no mercado e em parte do eleitorado de direita, mas tem custo político, sobretudo no curto prazo e entre os mais vulneráveis. Um dos entrevistados lembra que cerca de 93% do Orçamento é obrigatório, com despesas vinculadas a pisos, benefícios e direitos, de modo que cortes profundos dependeriam do Congresso.
Por que o mercado se aproxima
Em newsletter no jornal O Globo, o jornalista Thomas Traumann escreveu, com base em conversas com economistas-chefes de bancos e fundos, que para esses agentes a simples saída de Lula do poder poderia melhorar o ambiente de investimentos. Segundo ele, ninguém espera de Flávio medidas liberais mais profundas, como o fim da vinculação do salário mínimo à Previdência, e há consenso de que o candidato tem pouco interesse pelo tema econômico e gastaria capital político com a anistia ao pai e o impeachment do ministro Alexandre de Moraes, do STF. A leitura do mercado, ainda segundo Traumann, é que ele ao menos daria autonomia à equipe da Fazenda.
Cortez avalia que o apelo de Flávio entre empresários vem principalmente de ser o principal adversário de Lula, dada a rejeição do governo no mercado, e vê uma visão excessivamente otimista de que o problema fiscal se resolve só com a troca de governo. Inhasz diz que parte do empresariado vota em Flávio como voto útil e outra parte se encanta com o discurso de menos impostos e burocracia, mas que o apoio não significa confiança irrestrita e que deve haver cobrança por compromissos fiscais em caso de vitória.
Fonte: Nexo Jornal (análise publicada em 24 de setembro de 2026). Foto: Senado Federal/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).
