Pular para o conteúdo
Publicidade
Basta de Feminicídio! Denuncie! Salve uma vida! Ligue 180
Altar de Dia de Muertos com fotografias e imagens religiosas, velas, flores laranja de cempasúchil e um tapete de flores com uma caveira branca
Crônica

De Cluny ao Zócalo: a origem do Dia de Finados e por que o México faz festa para os mortos

Compartilhar

Texto autoral do FolhaIn, escrito com base em registros históricos amplamente conhecidos sobre a data.

Em quase todo o Brasil, o 2 de novembro tem som baixo: passos entre túmulos, flores, velas, uma reza. O Dia de Finados é feriado nacional e, para muita gente, o dia de “visitar” quem partiu. Do outro lado do continente, no México, as mesmas datas costumam ganhar música, comida, papel picado e uma explosão de laranja. Duas maneiras de lembrar os mortos, uma origem cristã em comum e um caminho que se bifurcou.

Uma data nascida num mosteiro

A comemoração dos fiéis defuntos remonta ao ano 998, quando Odilon, abade do mosteiro de Cluny, na França, determinou que os monges rezassem por todos os mortos no dia seguinte ao de Todos os Santos, em 2 de novembro. A prática se espalhou pelos mosteiros e, séculos depois, foi adotada pela Igreja em geral, que passou a dedicar o dia à oração pelas almas. A ideia é simples: depois de lembrar os santos, lembrar também quem não foi canonizado, mas foi amado.

Esse costume chegou ao Brasil com os portugueses e se enraizou nas cidades e nas vilas. Hoje, o 2 de novembro é feriado nacional, com visitas aos cemitérios, missas e a tradição de levar flores e acender velas. Os cemitérios ficam cheios, e é comum ver famílias limparem e pintarem os jazigos nos dias anteriores.

O México e o encontro de dois mundos

No México, o Día de Muertos acontece em 1º e 2 de novembro. Pela tradição, o primeiro dia é dedicado às crianças que morreram, os “angelitos”, e o segundo, aos adultos. As raízes da celebração são anteriores à chegada dos espanhóis: os povos mesoamericanos, como os mexicas, viam a morte como uma etapa do ciclo da vida, e não como um fim, e tinham rituais para honrar os antepassados. Com a colonização, esses costumes se encontraram com o calendário católico de Todos os Santos e de Finados, e o resultado foi uma festa própria.

O símbolo mais conhecido é a ofrenda, o altar montado em casa ou em praça pública com fotografias dos mortos, velas, as comidas e bebidas de que gostavam, o pan de muerto, caveiras de açúcar, papel picado e a flor cempasúchil, de cor alaranjada, cujo caminho de pétalas, segundo a tradição, guia as almas de volta para casa. Em 2008, a Unesco incluiu a celebração indígena dos mortos no México na lista do patrimônio cultural imaterial da humanidade.

Silêncio e festa

A diferença de tom é o que mais chama a atenção. No Brasil, Finados costuma ser um dia de recolhimento, mais próximo da saudade e da oração. No México, o luto convive com o humor: a caveira vira personagem elegante, como a Catrina, e a ideia é receber os mortos com alegria, não afastá-los com medo. As duas formas dizem a mesma coisa de maneiras opostas: quem se foi continua presente enquanto alguém se lembrar.

Seja com uma vela acesa no cemitério ou com um altar de flores laranja, o gesto é parecido: parar por um dia para dizer o nome de quem não está mais aqui.

Texto autoral do FolhaIn. Foto: FridaArriaga/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

Publicidade
Basta de Feminicídio! Denuncie! Salve uma vida! Ligue 180