O caso da aposentada Maricarmen Abascal, de 87 anos, virou símbolo de uma crise que já se arrasta há anos na Espanha. Ela foi retirada de maca do apartamento em que morava de aluguel havia sete décadas, no centro de Madri, após uma ação judicial movida pela empresa proprietária do imóvel. As imagens do despejo comoveram o país e Abascal só conseguiu voltar para casa depois de fechar um acordo com a imobiliária.
O episódio reacendeu protestos e recolocou no centro do debate público um problema que pesquisas apontam como uma das maiores preocupações dos espanhóis: o acesso à moradia. No último sábado (3/10), milhares de manifestantes foram às ruas em cidades espanholas cobrando mais proteção para inquilinos, um dia depois de o governo não conseguir aprovar no parlamento uma legislação emergencial para o setor.
De excesso de casas a déficit de quase 1 milhão
O paradoxo é que a Espanha viveu, entre 1997 e 2008, um boom imobiliário que produziu cerca de 5 milhões de novas moradias — quase o dobro do que a demanda da época justificava. Segundo economistas ouvidos pela BBC News Mundo, esse excesso deixou a falsa impressão de que o país estava “superconstruído”, justamente no momento em que a crise financeira global, deflagrada pela quebra do banco americano Lehman Brothers, estourou a bolha imobiliária espanhola e varreu boa parte das construtoras do mercado.
O resultado foi uma guinada brusca: o ritmo de construção, que chegou a quase 14 moradias para cada mil habitantes, caiu para cerca de duas a cada mil — um nível considerado baixo até para os padrões europeus, onde a média gira em torno de quatro. Hoje o país constrói apenas por volta de 90 mil residências por ano, enquanto o Banco da Espanha estima um déficit habitacional de 750 mil unidades, que pode ultrapassar 1 milhão nos próximos dois anos caso nada mude.
Mais gente, mais turismo, menos oferta
Enquanto a construção não se recupera, a população cresce impulsionada principalmente pela imigração — em boa parte vinda da Colômbia e da Venezuela —, criando cerca de 250 mil novos lares por ano, segundo especialistas em política econômica consultados pela reportagem. Esse descompasso entre oferta e demanda ajuda a explicar por que os preços de compra e aluguel subiram 80% desde 2015, enquanto os salários avançaram apenas 30% no mesmo período, de acordo com o instituto de estatísticas espanhol. Em algumas cidades, o aluguel médio já consome praticamente todo o salário de um jovem trabalhador.
Fundos de investimento e aluguéis de curta temporada para turistas também entram na conta, embora os economistas discordem sobre o peso real de cada fator. Para alguns, esses fundos ainda detêm uma fatia pequena do mercado; para entidades de defesa de inquilinos, eles aquecem os preços ao comprar e revender imóveis sem nenhum investimento em melhorias. Já o turismo é inegavelmente um fator de pressão: a Espanha recebeu quase 97 milhões de visitantes estrangeiros em 2025, tornando-se o segundo país mais visitado do mundo, atrás apenas da França.
Paradoxalmente, o número de despejos no país vem caindo nos últimos anos, mas especialistas alertam que a estatística esconde um agravamento silencioso da crise: cada vez mais, apenas inquilinos com renda alta conseguem fechar um contrato de aluguel, enquanto imigrantes, jovens e famílias monoparentais ficam de fora do mercado formal. Diante da pressão popular, o governo espanhol chegou a propor suspender despejos até 2030 e prorrogar contratos de aluguel, mas as medidas ainda não foram aprovadas pelo Congresso.
Fonte: BBC News Mundo (reportagem de Juan Francisco Alonso). Foto: Francesco Militello Mirto/NurPhoto via Getty Images.
