O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato derrotado à Presidência, negou ter recebido ajuda de qualquer governo para deixar o Brasil e voltou a afirmar, sem apresentar provas, que a eleição foi fraudada. As declarações constam de uma entrevista de 75 minutos ao jornal norte-americano The New York Times, publicada nesta quinta-feira (5) e reproduzida em português pelo jornal O Globo. O subtítulo do NYT diz que, “de Miami”, ele “insiste em alegações infundadas” de fraude e tenta influenciar a política brasileira à distância, embora seu partido não conteste o resultado.
A viagem
Segundo o NYT, Flávio deixou o país depois de as autoridades brasileiras ordenarem a entrega de seus passaportes. Ele contou que decidiu partir na manhã seguinte à derrota, quando saía do condomínio onde o pai, Jair Bolsonaro, cumpre prisão domiciliar, por preferir não arriscar o mesmo destino. O jornal registra que, segundo autoridades americanas, o jato que o levou a Miami foi providenciado por um funcionário da Casa Branca e que a entrada nos EUA foi concedida diretamente pelo presidente Donald Trump. Ainda de acordo com o texto, a viagem de cerca de 8 mil quilômetros passou por Equador e Argentina, onde um dos principais assessores do presidente argentino o encontrou em um aeroporto.
Na entrevista, o senador negou qualquer ajuda: “Foi tudo comigo. Não houve ajuda de absolutamente ninguém, de nenhum governo.” Disse que o plano foi decidido com a esposa e que “pode ter havido torcida”, mas nada além disso. Sobre como chegou aos EUA, afirmou que vai “levar isso para o túmulo”.
Investigações e alegações de fraude
O jornal lembra que Flávio, de 45 anos, enfrenta investigações por lavagem de dinheiro e corrupção, mas não foi acusado de nenhum crime; quando seu mandato terminar, no início de 2027, ele perderá a imunidade parlamentar e poderá ser processado. O senador reafirmou sua inocência e disse: “Eu já sei que o desfecho final será a minha prisão.” Chamou o Judiciário de politizado e citou o ministro do Supremo que mandou prender seu pai, condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe. O irmão, Eduardo Bolsonaro, também está nos EUA depois de ser condenado no Brasil.
Flávio manteve que a vitória de Lula foi “matematicamente impossível”, ainda que tenha admitido: “Eu tenho minhas suspeitas. Ninguém pode dizer com 100% de certeza que estou certo, nem com 100% de certeza que estou errado.” Segundo o NYT, ele falou em adulteração de votos e repetiu alegações já desmentidas sobre uma falha de segurança na sala onde os computadores contabilizam os votos, ecoando teorias que o pai propagava sobre as urnas. O jornal afirma que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) descartou as acusações, que observadores internacionais atestaram a integridade da eleição e que dezenas de países reconheceram o resultado.
O texto também registra que ambos os candidatos haviam pedido a prorrogação do horário de votação, por causa de chuvas e atrasos de ônibus, e que a decisão judicial, tomada perto do fim da votação, afetou cerca de 34 mil votos, número que as autoridades eleitorais consideram insuficiente para alterar o resultado. Lula venceu por 4,4 milhões de votos. De acordo com o NYT, líderes do próprio partido de Flávio disseram não haver evidências de fraude.
Fonte: The New York Times, em tradução publicada pelo jornal O Globo. Foto: Dan DeLuca/Wikimedia Commons (CC BY 2.0).
